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19/01/2021

Em Louvor da Sombra

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No ensaio Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki divaga sobre o fascínio que a penumbra exerce sobre os orientais, principalmente os japoneses. O que no início parecia ser decorrência da dificuldade em manter ambientes iluminados — como os antigos templos que precisavam de telhados amplos para evitar a penetração da chuva, tapando por consequência a entrada de luz solar — , a sombra (ou a falta de luz) se torna objeto de apreciação. Com a adversidade os japoneses vislumbraram a beleza contida no escuro, e para além de contemplá-la, passaram também a utilizá-la como recurso estético na produção das mais variadas obras. Casas e estabelecimentos comerciais, utensílios e objetos de arte eram permeados pelo negrume das sombras.

Com a influência da tecnologia ocidental moderna, Tanizaki conta como a luz começou a penetrar pelas pequenas frestas no cotidiano japonês. Um banheiro de madeira que proporciona silêncio e deleite estético dá lugar ao brilhante banheiro de azulejo, com sua facilidade de limpeza e praticidade de uso. Um restaurante tradicional iluminado com a luz opaca e misteriosa de lampiões medievais é substituído por um estabelecimento com densa luz elétrica para se destacar comercialmente dos demais.

Nesse seio surge o problema fundamental da forma e função. O quanto estamos dispostos em abrir mão da forma pela promessa tão sedutora da função? É inegável que certas coisas proporcionam um bem-estar relativamente superior a outras, mas a conveniência imediata é muitas vezes uma falsa promessa: o que dá menos trabalho pode ser também destituído de sentido, e aos poucos a praticidade acaba amputando a capacidade que temos para contemplar.

Imagem Em Louvor da Sombra, de Junichiro Tanizaki.
Editora Penguin. 1ª edição, 2017.